sexta-feira, 25 de junho de 2010

Uma Apresentação Panorâmica da Vida, Pensamento e Antecedentes Intelectuais de Herman Dooyeweerd – Parte I por Fabiano de Almeida Oliveira[1]

RESUMO
O pensamento reformacional de Herman Dooyeweerd ainda é relativamente desconhecido no Brasil. O presente artigo pretende remediar essa situação, contribuindo para torná-lo um pouco mais conhecido e despertar o interesse em futuros estudos sobre a Filosofia da Idéia Cosmonômica, como é comumente conhecido esse sistema teórico de pensamento. Contudo, esta apresentação panorâmica em hipótese alguma pretende dar conta do horizonte geral do pensamento dooyeweerdiano, visto ser esta uma tarefa de fôlego destinada a um trabalho de maior envergadura. A proposta aqui apresentada presta-se apenas a proporcionar um vislumbre geral da vida e do pensamento desse autor, do ambiente onde floresceu o seu pensamento, o neocalvinismo holandês ou calvinismo kuyperiano, e do que representou a sua obra, sobretudo para a fé reformada. As idéias e análises de Dooyeweerd sempre estiveram arraigadas numa biocosmovisão calvinista, sendo, por isso, contribuições profundas e inestimáveis para a academia cristã-reformada.



PALAVRAS-CHAVE
Herman Dooyeweerd; Abraham Kuyper; Neocalvinismo holandês; Biocosmovisão;
Filosofia da Idéia Cosmonômica; Crítica teo-referente.

INTRODUÇÃO

Herman Dooyeweerd (1894–1977) foi de longe uma das mais frutíferas contribuições do movimento neocalvinista holandês à causa cristã, especialmente no que diz respeito à esfera cultural. Seu esforço em erigir um edifício teórico-sistemático se deu sem que se deixasse intimidar e nem abrir mão dos pressupostos da Palavra de Deus, o que comumente acontece quando se tenta dialogar com o pensamento cujas conclusões não estão necessariamente alicerçadas nas Escrituras Sagradas. Tal atitude, na melhor das hipóteses, quase sempre resulta em sínteses religiosas entre os genuínos pressupostos cristãos e os pressupostos não-cristãos, redundando em uma biocosmovisão[2] quimérica.


A filosofia de Dooyeweerd não foi forjada num vácuo intelectual; pelo contrário, seu pensamento se originou e se desenvolveu dentro de um ambiente cultural marcado pelo avivamento produzido pelo movimento neocalvinista holandês. Este lhe forneceu a visão ou concepção unificada de vida e de mundo, ou nos termos de Abraham Kuyper, uma biocosmovisão radicalmente baseada nos pressupostos da Escritura tal como apresentados pela tradição calvinista. Portanto, o pensamento de Dooyeweerd deve ao movimento neocalvinista holandês a sua orientação religiosa básica. Estes temas e pressupostos neocalvinistas ganharam uma formulação técnica e conceitual ao serem jungidos à estrutura metodológica fornecida, principalmente, por duas correntes filosóficas alemãs muito influentes nos dias de Dooyeweerd, o neokantismo ou neocriticismo alemão, sobretudo da Escola de Baden, representada por filósofos como Wilhelm Windelband (1848-1915) e Heinrich Rickert (1863-1936), e a fenomenologia de Edmund Husserl (1859-1938).[3]


O neocalvinismo foi uma força intelectual muito relacionada à construção de uma biocosmovisão cristã baseada na Escritura. A filosofia alemã, neste caso o neokantismo e a fenomenologia de Edmund Husserl, forneceram a Dooyeweerd o ferramental técnico e a estrutura metodológica propriamente dita de seu pensamento. Em outras palavras, é possível dizer que enquanto o movimento neocalvinista legou a Dooyeweerd uma biocosmovisão baseada na Palavra de Deus, a filosofia alemã lhe emprestou a metodologia apropriada para que aquela biocosmovisão fosse expressa através de uma filosofia técnica no sentido rigoroso da palavra[4]. Este artigo se limitará à apresentação do movimento neocalvinista holandês responsável pela biocosmovisão que Dooyeweerd tentará sistematizar.[5]


Os Antecedentes Culturais e Intelectuais do Pensamento de Herman Dooyeweerd: O Neocalvinismo Holandês

Foi o próprio Dooyeweerd que confessou que a Filosofia da Idéia Cosmonômica era fruto do reavivamento calvinista na Holanda liderado por Abraham Kuyper, ocorrido nas últimas décadas do século 19[6]. Desde o século 19 os calvinistas holandeses passaram a se envolver de maneira muito intensa com o exercício da responsabilidade cultural. Isto se deu em virtude de uma reforma levada a efeito principalmente por dois líderes calvinistas: Guillaume Groen van Prinsterer (1801-1876) e Abraham Kuyper (1837-1920). Tal reforma se fez necessária em função do declínio espiritual da igreja do estado, a Igreja Reformada da Holanda, cujo vigor espiritual e ortodoxia doutrinária haviam se perdido, resultado do contínuo processo de secularização possibilitado pelos efeitos tardios da filosofia iluminista do século 18. O mesmo fenômeno se repetia em toda a Europa: as igrejas históricas estavam morrendo e o liberalismo teológico tomando o lugar da ortodoxia. Entre elas também se encontrava a Igreja Reformada da Holanda[7].


Nesse período, várias igrejas e concílios iniciaram uma série de protestos, reivindicando o retorno aos padrões históricos de fé que estavam sendo pouco a pouco desprezados pela igreja do Estado. Os dois principais movimentos de protesto foram o Afscheiding[8], ocorrido na primeira metade do século 19, e o Doleantie, que se deu na segunda metade desse mesmo século. Todos esses movimentos de insatisfação dentro da Igreja Reformada da Holanda resultaram em cisões. A cisão provocada pelo Afscheiding se deu em 1834, sob a liderança de Hendrik Cock e H. P. Scholte[9]. Esse movimento resultou na criação da Igreja Cristã Reformada da Holanda. O primeiro grande líder dessa resistência foi Guillaume Groen van Prinsterer, que muito se esforçou para restaurar a pureza original da Igreja, levando as idéias desse movimento às escolas e fundando um partido político cristão. O segundo grande líder e sucessor de Groen van Prinsterer foi Abraham Kuyper. Kuyper foi o líder da cisão de 1886 conhecida como Doleantie[10]. Esse movimento teve o seu centro na cidade de Amsterdã, onde, alguns anos antes (1880), Kuyper havia criado a Universidade Livre. O Doleantie resultou no segundo maior cisma dentro da igreja estatal[11], sendo, de certa forma, uma continuação do movimento de insatisfação iniciado no Afscheiding por causa da crescente introdução de conceitos liberais que estavam produzindo frouxidão doutrinária. Este movimento também foi um protesto contra a política eclesiástica da igreja do Estado.


O termo “neocalvinismo”, ao que parece, foi criado pelos simpatizantes e seguidores de Kuyper e popularizado pelos seus críticos reformados que desejavam acentuar as diferenças entre Calvino e o calvinismo revitalizado kuyperiano[12]. Um dos críticos contemporâneos mais ácidos de Kuyper e de seus seguidores, que ajudou a popularizar esse termo, foi Foppe M. Ten Hoor, um pastor da Igreja Cristã Reformada da América e também professor de teologia sistemática no Calvin Theological Seminary, em Grand Rapids, de 1900 a 1924[13]. Segundo John Bolt, o termo apareceu pela primeira vez num impresso de 1897, feito por um jurista holandês chamado A. Anema, que era professor da Universidade Livre de Amsterdã, além de grande simpatizante da obra de Kuyper[14]. No início, o termo tinha uma conotação pejorativa. Prova disso é que o próprio Kuyper se autodenominava um calvinista histórico[15]. Entretanto, aos poucos essa expressão passou a ser vista como símbolo de um calvinismo integral voltado à totalidade da vida. O neocalvinismo foi um movimento de caráter eclesiástico-cultural baseado no resgate dos princípios da reforma calvinista e na reinterpretação, baseada nestes mesmos princípios, dos deveres cristãos frente às demandas sócio-culturais de sua própria época. Este movimento representou o reavivamento do interesse pelo pensamento de João Calvino vividamente aplicado às questões da época[16]. O movimento, por algumas décadas, exerceu uma forte influência sobre a vida cultural e política da Holanda, propondo a construção de uma “biocosmovisão” cristã-calvinista[17]. Foi o próprio Kuyper quem articulou essa cosmovisão de maneira paulatina, através de seus artigos publicados por vários anos nos periódicos Standaard e De Heraut, e em muitos livros que escreveu, principalmente na obra que ficou conhecida como Stone Lectures on Calvinism, uma série de palestras proferidas no Seminário Teológico de Princeton, nos Estados Unidos, em 1898. Nessa série de palestras, Kuyper apresenta o calvinismo como uma força cultural, um sistema de vida não restrito às esferas eclesiástica e teológica[18]. Kuyper estava convicto de que era através de um resgate do calvinismo original que o cristianismo poderia se opor vigorosamente aos princípios apóstatas resultantes do pensamento moderno[19].


Kuyper não chegou a desenvolver a sua biocosmovisão na forma de um sistema teórico que servisse de ponto de partida estrutural para a edificação teoreferente das demais áreas do conhecimento humano, com exceção da teologia, que contou mais de perto com o seu gênio sistemático. Seu sucessor na cadeira de dogmática da Universidade Livre de Amsterdã, Herman Bavinck (1854-1921), era dogmático por profissão e também sentia a necessidade de uma estrutura filosófica cristã fiel e em linha com a Revelação, tendo até escrito um ensaio intitulado Filosofia da Revelação para preencher essa lacuna. Ambos, Kuyper e Bavinck, contribuíram com princípios gerais para a causa neocalvinista; em suma, contribuíram com a formulação de uma biocosmovisão. No entanto, a sistematização destes princípios na forma de um corpo filosófico consistente e unificado só surgiu anos mais tarde com o trabalho pioneiro de Dooyeweerd e seu cunhado Dirk Hendrik Theodoor Vollenhoven (1892-1978).[20]


Fonte: Revista Fides Reformata XI, nº 2, 2006.

________________________

Notas:

[1]O autor é ministro da Igreja Presbiteriana do Brasil; bacharel em Teologia pelo Seminário Unido de Teologia – RJ; bacharel em Filosofia pela Universidade de São Paulo; mestre em Teologia com concentração em Filosofia pelo Centro Presbiteriano de Pós-Graduação Andrew Jumper; mestrando em Filosofia pela Universidade de São Paulo.


[2] Biocosmovisão ou simplesmente “cosmovisão” – literalmente “visão ou concepção de vida e de mundo”, termo cognato do alemão Weltanschauung, muito encontrado na filosofia de Wilhelm Dilthey; foi empregado por Abraham Kuyper nas suas famosas “Palestras sobre o Calvinismo” para descrever o calvinismo como um sistema integral pré-discursivo pelo qual se compreende e se interpreta a vida e o mundo. Ver WOLTERS, Albert M. The intellectual milieu of Herman Dooyeweerd. Em: MCINTIRE, C.T. (org.). The legacy of Herman Dooyeweerd: Reflections on critical philosophy in the Christian tradition. Lanham, Maryland: University Press of America, 1985, p. 4.

[3] Ibid., p. 12.


[4] A apropriação de alguns aspectos metodológicos do pensamento neokantiano e fenomenológico não deve ser confundida com uma síntese de pressupostos ou mesmo com uma absorção acrítica e irrefletida do conteúdo filosófico destas escolas, como será visto mais à frente. É preciso lembrar que Dooyeweerd se propõe a criar um sistema teórico fundamentado na antítese religiosa entre os pressupostos religiosos da Escritura e os do mundo apóstata. Dooyeweerd sempre lutou ardorosamente contra toda sorte de conformação do pensamento cristão com o pensamento não-cristão de seu tempo. No entanto, tal como Calvino, também cria na existência de muitos momentos de verdade no pensamento não-cristão em virtude da graça comum de Deus.


[5] Dois textos em particular tentam, muito cautelosamente, remontar às origens intelectuais e culturais do pensamento e da metodologia empregada no pensamento de Dooyeweerd. São eles: KNUDSEN, Robert D. Dooyeweerd’s philosophical method. Apresentação feita na Conferência Anual de Filosofia do Wheaton College. Wheaton, Illinois: Wheaton College, 1962. Essa palestra mais tarde foi incluída num texto mimeografado do próprio Knudsen intitulado Philosophia reformanda: Reflections on the philosophy of Herman Dooyeweerd, 1971; e WOLTERS, Albert M. The intellectual milieu of Herman Dooyeweerd. Esse texto se encontra na obra The legacy of Herman Dooyeweerd: Reflections on critical philosophy in the Christian tradition, cujo editor geral é C.T. McIntire.


[6] DOOYEWEERD, Herman. A new critique of theoretical thought. Jordan Station, Ontario: Paideia Press, 1984, vol. 1, p. 523.


[7] WALSH, Brian; CHAPLIN, Jonathan. Dooyeweerd’s contribution to a Christian philosophical paradigm. Toronto: The Association for the Advancement of Christian Scholarship, 1982, p. 2.


[8] Afscheiding é um vocábulo holandês que quer dizer “separação”.


[9] AAMSMA, Louis. Doleantie. In: HUGHES, Philip E. (org.). The encyclopedia of Christianity. Marshallton, Delaware: The National Foundation for Christian Education, 1972, vol. 3, p. 432.


[10] O termo Doleantie vem do verbo holandês dolerende que significa “queixar-se”, “lamentar”, “reclamar”, e indica a postura dos crentes fiéis diante da atitude desconfortável daqueles que estavam promovendo inovações às custas do sepultamento da tradição confessional da Igreja. Vide BOLT, John. A free church, a holy nation: Abraham Kuyper’s American public theology. Grand Rapids: Eerdmans, 2001, p. 454, n. 25.


[11] BOLT, A free church, a holy nation, p. 190.


[12] Ibid., p. 444.


[13] Ibid. Para mais detalhes acerca da crítica de F. M. Tem Hoor a Kuyper, Bavinck e seus seguidores, remeto os leitores ao capítulo 8 da obra de BRATT, James D. Dutch Calvinism in modern America: A history of a conservative subculture. Grand Rapids: Eerdmans, 1984.


[14] Ibid.


[15] Isso fica claro, por exemplo, nas suas Stone Lectures on Calvinism, que foram publicadas recentemente em português pela Editora Cultura Cristã. KUYPER, Abraham. Calvinismo. São Paulo: Cultura Cristã, 2002.


[16] BOLT, A free church, a holy nation, p. 444.


[17] WOLTERS, The intellectual milieu of Herman Dooyeweerd. Em: MCINTIRE, The legacy of Herman Dooyeweerd, p. 2.


[18] ZYLSTRA, Bernard. Introduction. Em: KALSBEEK, L. Contours of a Christian philosophy: An introduction to Herman Dooyeweerd’s thought. Toronto: Wedge Publishing Foundation, 1981, p. 18.


[19] KUYPER, Calvinismo, p. 19.


[20]D. H. Th. Vollenhoven era professor de filosofia da Universidade Livre de Amsterdã.


Extraído do site: ELEITOS DE DEUS

Exerça seu Cristianismo: se vai usar nosso material, cite o autor, o tradutor (quando for o caso), a editora (quando for o caso) e o nosso endereço.  Under Creative Commons License: Attribution

O MELHOR LIVRO DOS ÚLTIMOS "100 ANOS" PARA DESENVOLVER UMA MENTE, UM INTELECTO, UM PENSAMENTO TEÓRICO E EPISTEMOLOGICAMENTE BÍBLICO, CRISTÃO E REFORMADO-REFORMACIONAL.



Maiores informações, clique aqui - HERMAN DOOYEWEERD